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Educação

Currículos se abrem a novos temas para apoiar o desenvolvimento de competências


Muitas mudanças observadas na educação decorrem da percepção de que futuros adultos precisam de mais competências e habilidades, não apenas para o mercado de trabalho, mas para uma vida plena.

Um exemplo de iniciativa nessa direção é o Garage 21, disciplina adicional da plataforma CLOE que aborda conhecimentos em cinco grandes áreas: economia e empreendedorismo, saúde e bem-estar, cultura e sociedade, trabalhos manuais e tecnologia.

Juliana Ferrari, psicóloga, mestre em psicologia escolar e do desenvolvimento humano e gerente pedagógica da Camino Education, explica que toda a ideia da disciplina já é expressa no nome: aquele espaço da casa que serve para armazenar de tudo um pouco, como ferramentas e materiais que podem servir para tirar uma ideia do papel. “Garage 21 é uma garagem com ferramentas de inovação para o século 21”.

Seguindo a linha da aprendizagem ativa, a ideia é que os conteúdos abordados pela disciplina possam ajudar na construção de sentido para que crianças e jovens entendam melhor e se identifiquem mais com os conteúdos tidos como mais tradicionais, que, algumas vezes, são mais difíceis de despertar conexão com a vida do estudante.

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Combinando conteúdo e socioemocionais 

Juliana traz o exemplo de alguns estudantes mundialmente conhecidos, como Malala Yousafzai, Greta Thunberg e Kenneth Shinozuka, para citar algumas características comuns entre jovens inovadores, perfil que a plataforma busca desenvolver. Em termos de competências cognitivas, são pessoas analíticas que prestam atenção no meio à sua volta, críticas e capazes de argumentar. Mas, ao mesmo tempo, também marcam presença as chamadas “soft skills”, as competências socioemocionais, como alto grau de empatia, cuidado e respeito para com o outro.

“O Kenneth, por exemplo, tem um cuidado, respeito e empatia extremos pelo avô, que tem a doença de Alzheimer. Mas além disso, ele também tinha conhecimento de programação, o que permitiu que criasse a meia com um sensor de pressão para indicar que o avô tinha saído da cama de madrugada”, explica Juliana.

Para a psicóloga, trata-se, então, de dar espaço para que as competências socioemocionais se manifestem, o que, devido ao volume de conteúdos curriculares das aulas tradicionais, nem sempre é possível. “O Garage 21 foi criado para ser um componente em que desenvolvemos competências essenciais para a vida no século 21. Fazemos isso a partir de conteúdos modernos, que facilitam processos de transformação e não são, de maneira nenhuma, desvinculados da vida normal.”

A conexão com o currículo 

Se ainda não ficou claro como os conteúdos curriculares conversam com esses novos temas, aqui vai um exemplo. Aulas de história e geografia abordam, invariavelmente, ética, cultura e sociedade. Entretanto, o aprendizado pode acabar preso às datas e processos. A proposta aqui é priorizar o aspecto cultural do conteúdo. Há uma expedição, por exemplo, que aborda exclusivamente as festas populares brasileiras, que já são trabalhadas nas disciplinas tradicionais de forma mais espaçada.

“Na área de saúde e bem-estar, há uma carga muito alta de ciências e geografia, com dados sobre a saúde da população, situação de fome em determinado país. O Garage aborda como esses desafios podem ser endereçados. Ou seja, trabalhamos temas que já aparecem em todas as disciplinas, mas reservamos um tempo para que o estudante realmente possa pensar sobre isso”, afirma Juliana.

Essa correlação entre conteúdos fica clara na fala de Anthonny Veiga, professor que utiliza o Garage 21 com alunos do ensino fundamental 2 de uma escola da rede particular de Tucuruí, no Pará. “O que mais me chama atenção no Garage é justamente essa possibilidade de integração que é percebida pelos próprios estudantes. Várias vezes quando estamos trabalhando um conteúdo eles comentam que outro professor já falou sobre o tema. É um processo de transformar o conhecimento que adquirem na escola e levá-lo para fora desse ambiente, pois são temas atuais debatidos pela sociedade.”

Os alunos usaram conhecimentos de porcentagem, aprendidos na aula de matemática, por exemplo, para discutir a quantidade de pessoas das classes A, B e C que têm acesso à conectividade. O professor cita, ainda, que pôde propor várias formas de os estudantes apresentarem os conteúdos estudados, como em seminários, criação de um telejornal e confecção de folders e cartazes espalhados pela escola, tudo isso com a possibilidade de adaptar os conteúdos para abordar condições regionais da escola.

Anthonny conta que, no início, alguns estudantes mostram-se tímidos frente à nova disciplina e a forma de trabalhar, que foge à abordagem conteudista. Entretanto, o professor se diz positivamente surpreso com alguns posicionamentos e discussões, como o debate sobre racismo. “Logo no início das aulas, uma aluna comentou que, assim como as amigas, ela nunca tinha visto nenhum conteúdo sobre saúde mental, mas que achava muito importante, principalmente naquele momento que estava precisando se abrir e conversar. Esse depoimento me deixou muito feliz, emocionado e motivado em continuar.”

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Tema para a vida 

O caso da escola estadual Rômulo Castello, na cidade Serra, no Espírito Santo, mostra que esses conteúdos também podem ser trabalhados de outras formas, aproveitando a curiosidade natural dos alunos.

A escola de tempo integral oferece curso técnico de administração e logística integrado ao ensino médio, e uma das disciplinas trabalhadas é economia. Mariana Rodrigues, economista e professora da disciplina, teve a ideia de incentivar que os jovens do segundo ano do ensino médio participassem do desafio nacional “Quero ser Economista”, promovido pelo Cofecon (Conselho Federal de Economia).

Depois de uma palestra online que envolveu os alunos e famílias da escola, onze jovens toparam e se inscreveram no desafio. Nesse meio tempo, Mariana criou um grupo de estudos no WhatsApp para que pudesse conversar e debater alguns temas e exercícios. A cada dia, a professora propunha um desafio diferente, como responder questões teóricas sobre economia, escrever textos e cumprir missões.

“Nas aulas do currículo e também no grupo, eu sempre procuro trazer exemplos práticos de como a economia é importante e influencia a vida dos jovens nas escolhas que eles fazem e no jeito de ser portar como ser político. E eles ficam muito curiosos nesse sentido, querendo saber sobre assuntos que veem nos jornais e como é a vida de um economista. Acho muito importante trazer esse entendimento de porque os preços ficam altos ou porque as pessoas perdem o emprego”, explica.

O esforço de estudo rendeu bons frutos. Dos 361 alunos das redes pública e privada do Espírito Santo inscritos, apenas quatro foram classificados para a final do desafio, e os quatro são alunos da escola Rômulo Castello, sendo que uma estudante ocupou o sétimo lugar na tarefa final.

“Comecei cursando faculdade de administração, mas troquei por economia quando descobri todo um tema que eu não conhecia. Essa é apenas uma das profissões que podem nos ajudar no dia a dia de formas muito diversas mas que, infelizmente, não temos em muitas escolas”, completa Mariana.

 

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CLOE


Fonte Porvir.org

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