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Educação

Educação midiática prepara jovens para vida em sociedade


Quando a Netflix lançou no ano passado o documentário “O Dilema das Redes“, o assunto tomou conta de muitas discussões de WhatsApp, apareceu por diversas vezes entre os assuntos mais comentados em redes sociais como o Twitter e permaneceu no radar de debates. Eram as redes sociais discutindo sobre seu próprio funcionamento, a partir do impacto na vida real do vazamento de dados, dos riscos constantes à privacidade e o movimento de desinformação em massa. 

Nessa espécie de metalinguagem, há muito a ser comentado e aproveitado em sala de aula. Foi o que fez a educadora Luemy Ávila, da Secretaria Municipal de Educação de Macaé e Rio das Ostras (RJ). Para trabalhar a cultura digital e inserir o contexto de educação midiática em aula, Luemy trabalhou junto com o corpo docente a discussão do filme com os alunos. 

A escolha do tema veio deles. Assim como, no início deste ano, quando o assunto mais comentado no momento era um reality show de confinamento e os estudantes também trouxeram para a discussão, o tema não foi rejeitado. Pelo contrário, foi incorporado nas aulas. A secretária afirma que, por fazer parte do universo deles, é importante ficar atento a esses relatos. “Fez até mesmo com que os próprios educadores tivessem que acompanhar o que estava acontecendo no programa”, disse. 

Quando se trata de educação midiática, trabalhar sobre fake news é apenas uma das possibilidades. Trata-se de uma habilidade que o aluno vai levar para sua vida inteira e, por isso, não deve estar presa a apenas uma disciplina ou tópico e se reflete em toda a construção de conhecimento, como explica Mariana Ochs, do Educamídia. 

Ela aponta que considera adequado que quando educadores propuserem pesquisas ou leituras disparadoras, o façam de maneira a que os alunos se tornem mais proativos tanto nessa busca por temas e textos, quanto na curadoria para selecionar o que vão usar no seu aprendizado. 

E não só as escolas, como as redes de ensino já perceberam a necessidade de tratar de forma mais ampla as discussões envolvendo produção midiática.

 

Entrada nas redes de ensino
Em São Paulo, a rede estadual instituiu  a educação midiática como componente curricular, que aparece no programa Inova Educação, uma iniciativa que já formou 100 mil professores em letramento digital. O assunto é trabalhado nos anos finais do ensino fundamental e ensino médio como uma diretriz curricular.

Essa necessidade de desenvolver essa habilidade torna-se ainda mais necessária de ser trabalhada com jovens nessa faixa etária. “Dentro da secretaria [a temática] vem sendo vivenciada de duas formas: de maneira transversal, por meio do currículo paulista por meio das diferentes áreas do conhecimento, e também de uma forma muito assertiva dentro do componente de tecnologia e inovação”, aponta Débora Garofalo, professora e coordenadora do Centro de Inovação da Educação Básica de SP.

Especificamente dentro do componente de tecnologias e inovação, os estudantes da rede paulista têm contato com vivências, estudos de caso, infográficos e também a possibilidade de fazer projetos mão na massa onde vivenciam a educação midiática como eixo importante da sua formação integral.

A professora Luemy destaca que dar a oportunidade de que os alunos criem e se envolvam em projetos, auxilia na compreensão sobre o tema. Enquanto apenas fazer uma leitura de maneira passiva pode ter determinados impactos na vida dos estudantes, a perspectiva de colocar a mão na massa e eles próprios criarem seus jogos, notícias, podcasts ou outros elementos de comunicação é uma forma de reter e construir conhecimento. 

Em Macaé (RJ), cidade em que Luemy atua, a secretaria desenvolveu um projeto no qual os estudantes usaram o Scratch para trabalhar desinformação e fake news. “A grande urgência da educação midiática está nesse compartilhamento aleatório, de quando não se procura checar a veracidade da informação, a intenção daquela mídia e de fato como se produz”, diz a professora.

 

Protagonismo e interdisciplinaridade
Ao dar um papel mais ativo ao estudante, capacitando-o a analisar de maneira crítica os conteúdos que recebe, os educadores também fazem um trabalho de preparação com esses jovens para desafios que irão enfrentar na sociedade. Júlio Santos, professor de língua inglesa, projeto de vida e estudo orientado na Escola Estadual de tempo Integral Juscelino Kubitschek, em Assú (RN), avalia que essa oportunidade dada aos alunos não uma forma de criar espaços democráticos dentro do ambiente escolar, mas também um meio de fazer com que o estudante se entenda como cidadão.

“Acho que é imprescindível que, ao trabalhar educação midiática, se coloque o aluno numa posição de perceber que o papel dele não é só de estudante, mas de cidadão, compreendendo que a a vida é uma extensão da sociedade e que o professor, por meio dessas atividades, cria cenários que vão ser requisitados no futuro”, afirma. 

Mariana destaca a importância desta leitura reflexiva e de que as habilidades sejam desenvolvidas com essa intenção de uso posterior e para além da vida escolar. Ela afirma que é preciso ensinar a “interrogar” a informação, não somente consumi-la. “O universo da desinformação não é binário. Não existem coisas que são ostensivamente falsas e verdadeiras apenas. Existe uma série de coisas pelo meio, nuances de desinformação, coisas fora de contexto e isso diz respeito à habilidade do próprio leitor de entender o que está recebendo”, afirma.

Misturar esse protagonismo, com questões que são do interesse e da própria vida dos estudantes é uma forma também de colocá-los como agentes de transformação. Não se trata de ter um estudante que apenas devolva para o educador o que recebeu, como uma lição ou tarefa, mas fazê-lo enxergar como é feita a construção do conhecimento e de que maneira esse conhecimento adquirido pode interferir positivamente tanto em sua comunidade quanto na sociedade em si. 

Mesmo em pequenas doses, Julio destaca que é importante que os educadores dediquem tempo a projetos de educação midiática. Atualmente na rede onde atua não há nenhuma ação sendo desenvolvida em larga escala por parte da secretaria. No entanto, ele realiza algumas intervenções e tem estado em contato com diretorias de ensino para implementar o debate sobre educação midiática de maneira mais coordenada e em conjunto com outras escolas. 

Com o avanço de tecnologias da informação e a presença constante de redes sociais, por exemplo, Julio aponta que é imprescindível transpor essa lacuna entre o rápido avanço tecnológico e o letramento digital. “Mais do que nunca a sala de aula tem de ser esse espaço de elucidação, de entendimento, e desenvolvimento do olhar crítico dos estudantes”, disse.

 


Fonte Porvir.org

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