Siga-nos




Educação

Trabalhar Olimpíadas em sala de aula permite debate que vai além dos esportes


203 países começaram a disputar, nessa quarta-feira (21), os Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão. A edição 2020 – que era para ter acontecido no ano passado, mas foi adiada em razão da pandemia de Covid-19 – traz consigo a possibilidade de debater e trabalhar inúmeros assuntos em sala de aula, que vão muito além do mundo esportivo.

É claro que é possível a preparação de propostas nas aulas de educação física. Além de esportes tradicionais disputados em grupo, como futebol, vôlei e basquete, os professores podem aproveitar a recomendação para vivências ao ar livre a fim evitar contaminações pelo coronavírus e, com isso, introduzir novas práticas para crianças e jovens à luz das modalidades olímpicas.

Entretanto, professores de história, geografia e até mesmo física e matemática podem usar o evento em suas aulas, sem contar as discussões transversais que podem ser realizadas por qualquer docente.

Pela tradição, a chama olímpica é acesa em Olímpia, na Grécia

Valores, histórias e símbolos dos jogos olímpicos
Em uma retomada histórica, Marcelo Laguna, jornalista especializado na cobertura olímpica, explica que o conceito da Olimpíada remonta à Grécia Antiga. “As guerras paravam para que os jogos da antiguidade pudessem acontecer”, afirma. Essa ideia de reunião das nações a partir do esporte foi sendo transportada ao longo dos anos e Marcelo conta que viveu na pele esse estado de “congraçamento” que toma conta de uma cidade, mesmo diante de inúmeros problemas e desafios, como aconteceu durante sua cobertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016.

Para Veronica Fonseca, pedagoga e especialista em gestão de pessoas do programa Impulsiona Educação Esportiva, criado pelo Instituto Península, os sete valores olímpicos e paralímpicos – amizade, excelência, respeito, determinação, coragem, igualdade e inspiração – são imprescindíveis para garantir um bom clima na escola e o desenvolvimento dos alunos, o que, em ano de olimpíadas, ganha ainda mais força.

“As histórias inspiradoras dos atletas e a própria trajetória do Movimento Olímpico ao longo dos anos abrem brechas para que o professor aborde temas muito importantes, como a ética no esporte e na vida, a equidade de gênero e a participação feminina nas competições, a inclusão das pessoas com deficiência, o racismo, entre outros”, exemplifica.

📺  Vídeo traz um resumo da história das Olimpíadas

Protestos antirracistas nas Olimpíadas
Marcelo Laguna pondera que, por envolverem inúmeros governos e nações – que trazem consigo diferentes culturas, normas e formas de existir –, é inevitável que discussões geopolíticas estejam como pano de fundo das disputas esportivas.

O debate sobre racismo, por exemplo, é pauta antiga nas Olimpíadas. Em 1968, nos jogos do México, dois atletas negros dos 200 metros rasos dos Estados Unidos subiram ao pódio para receber medalhas de ouro e bronze e, ao fazê-lo, abaixaram a cabeça e ergueram o punho durante a execução do hino nacional como forma de protesto diante da discriminação racial no país norte-americano.

Para evitar esse tipo de manifestação, a regra 50 da Carta Olímpica, um equivalente à “constituição dos jogos”, proíbe protestos e manifestações políticas no pódio, em locais de jogos e nas cerimônias oficiais. Entretanto, reuniões do COI (Comitê Olímpico Internacional), no início de 2021, sinalizaram flexibilização da regra (saiba mais, em inglês).

De todo modo, a pauta da discriminação racial permeia os jogos há décadas. Marcelo problematiza a presença maciça da propaganda nazista nos jogos de Berlim, na Alemanha, em 1936. “Hitler queria fazer daquela Olimpíada um cartão de visitas internacional da supremacia ariana. Ele só não contava que inúmeros atletas negros fossem ganhar medalhas em modalidades como no atletismo. Toda essa discussão envolve a questão geopolítica e esse episódio fomenta debates interessantes, como por que as nações não foram contra a realização dos jogos em Berlim, considerando que o regime nazista já dava sinais do racismo e segregação de judeus?”, questiona.

Questões sociais, que apesar de serem externas ao mundo do esporte em si, ameaçaram a própria existência dos jogos olímpicos. Em 1976, nos Jogos de Montreal (Canadá), e também em 1980 (Moscou, Rússia) e 1984 (Los Angeles, Estados Unidos), o debate racial e o acirramento político, como o Apartheid e a Guerra Fria, fizeram com que inúmeras nações boicotassem o evento, negando-se a participar.

Temas vão além da educação física
Apesar de a pauta sobre discriminação poder ser trabalhada por todos os professores, existem possibilidades de explorar os jogos olímpicos em disciplinas específicas. A velocista Sha’Carri Richardson, dos Estados Unidos, por exemplo, não irá participar do evento em Tóquio, pois teve um teste positivo no exame antidoping. Para Veronica Fonseca, esse pode ser um tema a ser trabalhado nas aulas de química.

Nas aulas de geografia e história, é possível trabalhar os eventos históricos ao longo das olimpíadas, mas também é uma oportunidade de abordar a riqueza cultural dos países participantes. Em 2020, são 203 nações competindo.

As aulas de matemática não ficam de fora, e podem servir para analisar os esquemas táticos do futebol e outros esportes. “São muitas possibilidades. Os termos característicos na linguagem de cada esporte podem ser tratados nas aulas de língua portuguesa e de inglês. Equipamentos esportivos adaptados podem ser construídos nas aulas de artes”, exemplifica Veronica.

Ela reforça a potencialidade de professores de educação física unirem esforços a docentes de outras disciplinas. Segundo a pedagoga, isso enriquece o planejamento das aulas de todos os envolvidos.

“Os Jogos Olímpicos podem ser trabalhados não só pelo professor de educação física, mas ser o tema gerador das aulas de outras disciplinas, seja por meio das histórias inspiradoras dos atletas, dos fundamentos e táticas, da história, do quadro de medalhas.”

Os Jogos Olímpicos podem ser trabalhados não só pelo professor de educação física, mas ser o tema gerador das aulas de outras disciplinas

Na prática: como trabalhar os jogos olímpicos?
Pensando no potencial de trabalhar os conceitos dos jogos em sala de aula, o Impulsiona criou o portal Tóquio 2020, com dicas de atividades e conteúdos de referência para que docentes de inúmeras disciplinas possam aproveitar o evento.

Até 16 de agosto, é possível participar do Desafio Revezamento da Tocha. Professores e estudantes deverão usar materiais recicláveis e alternativos para construir sua própria versão da tocha e organizar um revezamento, que pode acontecer de forma online ou presencial.

O site conta, ainda, com duas opções de trilhas: olímpica e paralímpica. Em cada uma delas, professores podem fazer o download de materiais entre cursos gratuitos e aulas digitais para trabalhar a história, os símbolos, valores e os esportes presentes no evento.

Além do site do Impulsiona, outros portais também apresentam dicas práticas de como os jogos podem ser trabalhados com crianças e jovens. O Teaching Ideas, por exemplo, indica o uso de  estatísticas de eventos anteriores nas aulas de matemática, bem como a construção de um diagrama comparando os jogos antigos e os atuais e usar a capacidade dos estádios e preços dos ingressos para realizar atividades que envolvem números.

Nas aulas de ciências e biologia, as alternativas incluem a criação de um cardápio de refeições saudáveis para os atletas e o estudo de músculos específicos do corpo humano utilizados em cada modalidade.

Quando o assunto é computação e tecnologia, algumas ideias envolvem a montagem de um site ou aplicativo para o evento. Nas aulas de artes e música, além do exemplo já citado por Veronica, os alunos podem elaborar um novo símbolo ou mascote para os jogos e criar uma música-tema. Confira essas e outras ideias, original em inglês – tradução automática para o português.


Fonte Porvir.org

Continue lendo